O Sistema Financeiro Global

O Elefante em todos os quartos

Há um tema comum ao longo da história e que é a raiz de tudo o que está errado com o mundo em que vivemos hoje. Está relacionado com o dinheiro, a ganância e a corrupção que arrasta com ele. No entanto, talvez o dinheiro não seja propriamente a origem do problema. Talvez o problema seja o sistema monetário, em vez do próprio dinheiro. A fim de compreendermos plenamente as armadilhas do sistema monetário actual, devemos primeiro compreender o Sistema Financeiro Global, como ele funciona, e como ele impacta tantos aspectos da nossa vida.

Global Financial System

O que é o Sistema Financeiro Global?

Vamos começar com a macroestrutura – O sistema financeiro global é o sistema a nivel mundial dos acordos legais, instituições e agentes económicos formais e informais que, juntos, facilitam os fluxos internacionais de capital financeiro para fins de investimento e de financiamento do comércio. O sistema financeiro global pode ser dividido em entidades regulamentadas (bancos internacionais e companhias de seguros), reguladores, supervisores e instituições como o Banco Central Europeu ou o Fundo Monetário Internacional.

Eu acho que irá concordar que há um sem número de intervenientes que se deslocam através dos diversos sectores. As nossas mentes estão contaminadas com as várias histórias dos mídia,  convencionais e alternativas sobre quem é a culpa para a crise financeira de 2008 e sobre como não repetirmos os erros cometidos. No entanto, a maneira mais simples de decifrar toda esta complexidade é vê-la como um sistema global, controlado e gerido de cima para baixo. Projectar todas as responsabilidades nos Governos, Bancos Centrais, Wall Street ou na City (centro financeiro) de Londres é apenas uma distração.

Global FInancial System

O sistema deve ser visto como um todo. Isto é, ele inclui todos os bancos centrais, todos os grandes bancos comerciais, o BIS (sigla em inglês para o Bank of International Settlements ou Banco dos Acordos globais, em Português), o mundo académico que ‘estuda’ a economia e finanças e a imprensa financeira. O sucesso do Sistema Financeiro Global é baseada no facto de que cada uma das partes está interligada, e cada um tem um papel no sentido de garantir que o Sistema Financeiro Global prospera. Para que o sistema tenha sucesso e prospere, é fundamental que todas as pessoas no mundo aceitem os conceitos e a retórica que permitem ao sistema funcionar.

Quem são os maiores intervenientes?

No outono de 2011, um estudo realizado por uma série de cientistas suíços revelou que um pequeno número de bancos têm um peso decisivo na economia global. A ideia de que os bancos são um cartel e que este cartel controla a economia é agora uma questão cientificamente demonstrada. O estudo, chamado de “A Rede de Controlo Corporativo Global” pode ser lido aqui e foi realizado por Stefania Vitali, James B. Glattfelder e Stefano Battiston, em Zurique na Suíça. O estudo foi publicado na revista New Scientist, com créditos firmados no meio académico.

Então, e que conclusões foram retiradas deste estudo?

Verifica-se que existem cerca de 43 mil empresas que são “transnacionais” de acordo com a definição da OCDE. As 1318 no topo parecem formar o núcleo central de todo o grupo. Este núcleo tem três características importantes.

  1. Entre eles, geraram 20% das receitas totais a nível global.
  2. Eles são donos de si mesmos: O banco de dados da Orbis mostrou claramente que a maioria das acções dessas empresas eram propriedade de outros membros do grupo de 1318. Isto significa que as empresas maiores, mais rentáveis e influentes do mundo possuem-se todas umas às outras e são, basicamente, um enorme cartel, ou mesmo monopólio.
  3. Este núcleo detém todas as outras maiores 43.000 corporações transnacionais. Estas empresas geram outra parcela de 60% da renda do mundo inteiro.
  4. 80% do total controle estava então nas mãos de um grupo ainda menor de 737 corporações.
  5. No topo, apenas 147 empresas controlam directamente 40% da riqueza total.

Então, quem vemos na lista do Top 50? Yep, você adivinhou – todas as instituições financeiras de maior relevância (ver página 33 do estudo em http://arxiv.org/pdf/1107.5728.pdf)!

Parece seguro deduzir que as instituições financeiras detêm uma quota parte substancial de todas as grandes indústrias do mundo, sejam petrolíferas, armas, produtos farmacêuticos, alimentos, Telecomunicações e Tecnologias de Informaçãp, etc. Eu não adiro de ânimo leve a teorias da conspiração, mas o estudo realizado por estes senhores suíços parece ser credível, bem elaborado e cientificamente credível para mim.

Por que é que o controlo do mecanismo de criação do dinheiro é tão importante?

Agora que sabemos o que o Sistema Financeiro Global é, e nós identificamos o pequeno número de grandes instituições financeiras que efectivamente controlam 80% da economia mundial, o próximo passo lógico deverá ser o de entender como isto impacta a nossa vida diária, a vida das pessoas que apenas querem viver uma vida feliz e confortável. Eu acho que todos concordamos que o dinheiro é provavelmente um dos factores mais importantes (quer você goste ou não) na forma como vivemos as nossas vidas.

Uma citação não confirmada de Nathan Rothschild revela na perfeição a importância que o controlo sobre a criação de moeda tem:

Rothschild Quote
A mim não me interessa qual a marioneta que é colocada no trono de Inglaterra para reger o Império onde o Sol nunca se põe. O homem que controla a massa monetária controla o Império Britânico, e sou eu quem controla a massa monetária Britânica – Nathan Rothschild

A “base monetária” pode ser definida como o conjunto de toda a moeda emitida e outros instrumentos líquidos na economia de um país a partir de um determinado momento. A base monetária pode incluir dinheiro, moedas e saldos mantidos em contas correntes e de poupança. Os economistas analisam a oferta de moeda e desenvolvem políticas centradas no controlo das taxas de juros, aumentando ou diminuindo a quantidade de dinheiro que flui na economia.

Antes de prosseguir, é importante lembrar como o dinheiro é realmente criado. A maior parte do dinheiro na economia é criado pelos bancos, sob a forma de depósitos bancários – os números que aparecem na sua conta. Os bancos criam dinheiro novo sempre que eles fazem empréstimos. 97% do dinheiro na economia de hoje é criado pelos bancos, enquanto apenas 3% é criado pelo governo. Eu escrevi anteriormente sobre a falta de conhecimento que existe em torno da criação de dinheiro (em especial na classe política), mas o ponto-chave a reter aqui é que os bancos controlam em média 97% da nossa massa monetária. Eles criam dinheiro através de empréstimos e que esse mesmo dinheiro é destruído quando os empréstimos são reembolsados e, entretanto, os bancos fazem um lucro robusto e conveniente através dos pagamentos de juros sobre essa dívida (nós efectivamente pagamos uma renda ao banco enquanto os nossos empréstimos estão sendo reembolsado).

Control of Money Supply

Gostaria de sugerir novamente aos leitores se familiarizem com o trabalho da ONG Positive Money e do Movimento pela Reforma Monetária, uma vez que é fundamental para mudar a sociedade em que vivemos!

No entanto, se você fizer uma pesquisa rápida no Google você vai encontrar muitas referências ao facto da criação de dinheiro ser controlada pelos bancos centrais. Eu como que discordo um pouco disso e as razões serão descritas a seguir.

Como são os bancos privados decidir a quem emprestam e quanto emprestam a empresas e consumidores, eles procuram empréstimos, eles determinam a massa monetária. O Banco Central pode encorajar os bancos privados a emprestar ao reduzir exigências de reservas ou encorajando empréstimos através da redução das taxas de juro. O Banco Central também pode incentivar a contracção da massa monetária, fazendo o oposto.

Então efectivamente estamos numa posição onde os bancos privados controlam em média 97% da base monetária na economia e, se a lógica de Nathan Rothschild for aplicada, eles efetivamente possuem então 97% da economia, como resultado. É por isso que o controle da criação de dinheiro é tão importante e o papel do Banco Central não é realmente tão poderoso como ele deveria ser. O facto dos Bancos Centrais operar independentemente dos nossos governos eleitos, também nos faz pensar que os mesmos deveriam ser responsabilizados perante o público. É em vez disso, eu suspeito, são responsáveis perante o Sistema Financeiro Global do qual fazem parte!

Tudo isto pode ser extrapolado para fora para a economia global!

Por que é que tudo isto importa?

Tudo vai dar às circunstâncias nas quais nos encontramos hoje. Encontramo-nos numa posição onde o Sistema Financeiro Global foi socorrido eficazmente pelos governos quando os riscos assumidos pelos bancos fizeram ricochete. Como consequência, a economia caiu e a dívida privada foi efectivamente transferida para o Estado, e o resultado é que estamos a ser infligidos com medidas de austeridade e severa falta de investimento na nossa infraestrutura e economia como um todo.

No entanto, foi isso tudo um infeliz acidente ou estamos presos em um ciclo constante de altos e baixos?

Boom and Bust Cycle

Em primeiro lugar, é importante compreender que o principal factor por detrás das recessões e depressões é a contracção da oferta monetária causada pela deflação. Os resultados da deflação no valor do dinheiro é agradável para aqueles que têm muito do mesmo, isto é os 1%, mas os salários decrescem, o que não é agradável para aqueles que trabalham para ganhar a vida, isto é, os 99%. Além disso, as dívidas tornam-se mais valiosas em termos reais, o que é obviamente desastroso quando tantas pessoas na sociedade estão afogadas em dívidas. A oferta de moeda contratação provoca um colapso da procura na economia e aí tem a sua recessão!

Nos velhos tempos, os bancos poderiam iniciar criar deflação simplesmente concordando uns com os outros em pagar empréstimos, destruindo assim o dinheiro em circulação e causando a deflação. No entanto, as coisas têm evoluído significativamente e, hoje em dia, o maior risco para a economia global é o mercado de derivativos global (parte do “sistema bancário sombra”) que, em teoria, não tem nada a ver com a massa monetária controlada pelos bancos privados.

Derivativos

Os derivativos são produtos financeiros que são derivados da existência de activos “reais”. Um exemplo famoso é o das securitizações, as chamadas Hipotecas Securitizadas (em inglês Mortgage Backed Securities com a sigla MBS). Essencialmente consistem em levar dez hipotecas, dividi-las cada uma em dez partes, misturando então um décimo de cada conjunto e vendê-los como um único produto. O comprador é então proprietário de um décimo das dez hipotecas, em vez de uma por inteiro. A ideia é que isso dilui o risco de incumprimento.

Outro exemplo é o das Garantias de Incumprimento de Crédito (em inglês Credit Default Swaps com a sigla CDS). Os credores compram garantias fornecidas por outros credores. Se um empréstimo não vai ser pago, o credor já não fica comprometido com a totalidade do empréstimo. O raciocínio é mais uma vez de que os riscos são partilhados pela comunidade de credores.

Derivatives
Os Derivativos são armas financeiras de destruição maciça, que comportam perigos que, embora latentes de momento, são potencialmente letais – Warren Buffett

Na realidade, os derivativos são o esquema principal de saque utilizado pelo Sistema Financeiro Global. Quando você pensa na comunidade do Sistema Financeiro Global como uma malha apertada, percebemos o contexto e sobretudo porque é que estão a tentar diluir o risco.

Verifica-se que os 5 principais bancos de Wall Street (JP Morgan, Bank of America, Morgan Stanley, Goldman Sachs e HSBC) são os fiadores de última instância para 95% ou mais de todos os derivativos no mundo inteiro. Isso significa que eles são, em última instância, os tomadores de todos os riscos para todos os seguros de todo o sector financeiro, a nível mundial.

O comércio de derivativos é extremamente lucrativo para os envolvidos, desde que as coisas corram como esperado. O seu valor nominal total foi, em determinado momento, próximo de 1 Quadrilião, superando o PIB mundial total! Como se não fossem já duvidosos o suficiente em termos da sua função de reduzir o risco, eles não são contabilizados para os balanços públicos das instituições financeiras ou seja, eles são vistos como activos extrapatrimoniais, pelo que uma revisão do balanço de uma qualquer instituição financeira não vai lhe fornecer qualquer detalhe sobre a exposição aos derivativos! Consequentemente, ninguém pode saber realmente qual é a relação das mais-valias de qualquer instituição financeira, uma vez que eles podem ter enormes obrigações através do comércio de derivativos, mas tal não é visível nos seus balanços.

Off Balance Sheet Financing
Fontes de financiamento fora dos balanços oficiais são quaisquer meios que assegurem a utilização de bens para a firma sem ter a responsabilidade de compensação. – Se a responsabilidade não for reconhecida, o sistema de duas entradas não permite o reconhecimento do activo também, mas isto é um mal menor que alguns gestores estão predispostos a suportar.

Como explicado acima, a proposta de valor ou ponto forte dos derivativos é que eles ajudam a gerir e a mitigar riscos. Isso ajudou a criar uma falsa sensação de segurança entre os bancos e reguladores durante a primeira década deste milénio, de que os empréstimos haviam perdido os seus “riscos” tradicionais e, por conseguinte, que a especulação no sector imobiliário não era mais um problema pois o valor real estava a ser criado. Isso criou uma enorme bolha especulativa nos preços das casas e, logo que o Sistema Financeiro Global decidiu que era a hora da deflação e contracção da oferta monetária – BOOM – a bolha estourou! Há duas conclusões razoáveis que podemos tirar para determinar a causa do acidente:

  1. Os poderes do sistema financeiro global não compreenderam as consequências de criar a bolha e, quando a bolha estourou, foi um choque para todos no sistema; ou
  2. Este foi apenas o mais recente de um longo historial de ciclos organizados de bolhas inflacionárias e implosões deflacionárias, que são controlados pelo Sistema Financeiro Global

A verdade é que os 1% têm beneficiado muito com a crise de 2008 e os 99% estão a pagar a factura. Argumentar que isso é coincidência é ingénuo na minha opinião.

Conclusão:

É claro que o Sistema Financeiro Global controla praticamente toda a economia mundial e que toda a sua panóplia de manipulações vai passar despercebida enquanto eles fazem dinheiro e mantêm baixo o risco. No entanto, se o risco sobe na verical, são os Governos e os contribuintes globalmente que precisam de intervir e assumir os riscos, os custos de amortização das dívidas do sector privado. É um grande jogo para eles, mas tem um impacto muito real nas vidas de biliões de pessoas por todo o mundo.

Todo o sistema foi criado para garantir que uma pequena parcela da população mundial fica muito rica, enquanto todos pagamos o preço. O maior desafio da nossa sociedade actual é o Sistema Financeiro Global. Até que que desmantelem as ligações entre governos, bancos centrais e instituições financeiras e se traga de volta o controlo sobre a criação de dinheiro para o domínio público, nunca poderemos alcançar a verdadeira igualdade, justiça e compaixão na sociedade.

Cada partido político progressista no mundo deve promover mudanças significativas e pioneiras sobre como o Sistema Financeiro Global opera dentro dos seus respectivos países e, no mínimo, deve defender políticas que garantam poder sobre a criação de moeda e oferta monetária fora do sector privado.

O Elefante em cada quarto quando se fala de políticas económicas e monetárias é, sem dúvida, o Sistema Financeiro Global! Se você não conseguir entender o Sistema Financeiro Global, você irá falhar em compreender a política, a economia, a regulação e tudo o mais que é tocado pelos intervenientes do jogo do Sistema Financeiro Global!

É hora dos 99% contra-atacarem e mudarem o sistema!

Fonte: http://www.aviewfromtheattic.com/the-global-financial-system/

Deixar uma resposta

Top
%d bloggers like this: