Como os billionários usam as organizações não-lucrativas para ludibriarem os governos e forçarem as suas agendas na Humanidade

À medida que a riqueza é concentrada nas mãos de cada vez menos pessoas, a elite bilionária está cada vez mais a virar-se para fundações e organizações não-lucrativas para implementar a mudança que pretendem ver no mundo.

Com a ascensão do capitalismo filantrópico, um número crescente de críticos estão a levantar sérias questões sobre se esta influência desproporcional estará a fazer mais mal do que bem.

Na edição de Janeiro do New York Review of Books, o veterano jornalista Michael Massing observou que, só nos últimos 15 anos, “o número de fundações com um bilião de dólares ou mais em activos duplicou, para mais de oitenta.” O sector filantrópico nos Estados Unidos é muito mais significativo do que na Europa, alimentado em parte pelos generosos perdões fiscais que o público norte-americano subsidia até à quantia de 40 biliões de dólares por ano.

Como Massing observa, os bilionários não “dão” apenas o seu dinheiro, eles têm ideias sobre como ele deve ser usado, e a sua visão muitas vezes é alinhada com os seus próprios interesses económicos. Por essa razão, a indústria filantrópica merece uma análise rigorosa, e não uma “carta-branca” só porque está a serviço do bem.

O argumento de Massing seguiu um estudo divulgado em Janeiro pela organização de vigilância Global Policy Forum, que constatou que as fundações filantrópicas são tão poderosas que estão a permitir que indivíduos ricos contornem os governos e organismos internacionais como as Nações Unidas, com o objectivo de implementar as suas próprias agendas. Além do mais, essa influência desproporcional está concentrada nos Estados Unidos, onde 19 das 27 maiores fundações estão sedeadas. Essas 27 fundações em conjunto possuem 360 biliões de dólares, escrevem os autores Jens Martens e Karolin Seitz.

Tal acumulação de riqueza dramática tem implicações perturbadoras. Gerir “qual o impacto de enquadrar os problemas e definir soluções de desenvolvimento, através da aplicação da lógica de negócios das instituições com fins lucrativos às actividades filantrópicas, por exemplo, baseados em resultados ou foco em soluções tecnológicas de retorno rápido nos sectores da saúde e agricultura?” pede o relatório.

Estas perguntas não são novas, como os movimentos sociais há muito tempo deram o alarme sobre o impacto global do sector filantrópico em constante expansão. Em 2010, o movimento camponês internacional La Via Campesina atacou a aquisição de acções da Monsanto pela Fundação Bill e Melinda Gates como prova de que o seu papel na privatização da cadeia alimentar global e grandes agronegócios de exportação, desde África à América do Norte, deve ser visto à luz da perspectiva comercial e não da humanitária.

“É realmente chocante para as organizações camponesas e movimentos sociais no Haiti ter conhecimento da decisão da Fundação Bill e Melinda Gates de comprar ações da Monsanto enquanto dá dinheiro para projectos agrícolas no Haiti que promovem as sementes e agroquímicos da empresa”, disse Chavannes Jean-Baptiste do Movimento Camponês do Haiti Papaye e coordenador caribenho do La Via Campesina no momento. “As organizações camponesas do Haiti querem denunciar esta política que é contra os interesses de 80 por cento da população do Haiti, e é contra a agricultura camponesa que é a base da produção alimentar do Haiti”.

A Fundação Gates, mais recentemente, caiu sob o escrutínio da organização de advocacia Justiça Global Agora, que divulgou um relatório em Janeiro que levanta preocupações sobre o histórico da instituição no que diz respeito às políticas de educação, alimentação e cuidados de saúde.

“A Fundação Gates rapidamente se tornou o actor mais influente no mundo da saúde e políticas agrícolas a nível global, mas não há nenhuma supervisão ou escrutínio na forma como essa influência é gerida”, disse Polly Jones da Justiça Global Agora. “Essa concentração de poder e influência é ainda mais problemática quando se considera que a visão filantrópica da Fundação Gates parece ser em grande parte alicerçada nos valores da América corporativa. A fundação é implacável a promover grandes iniciativas baseadas em negócios, tais como a agricultura industrial e saúde e educação privadas. Mas todas iniciativas estão a exacerbar potencialmente os problemas da pobreza e da falta de acesso aos recursos básicos para os quais a fundação é suposto ser o alívio”.

O CEO do Facebook, Mark Zuckerberg e sua esposa, Priscilla Chan, levantaram algumas sobrancelhas em Dezembro quando anunciaram que iriam doar 99 por cento da sua riqueza. Como se veio a comprovar, esta não foi uma dádiva, de todo, mas uma transferência de fundos para a sua própria empresa de responsabilidade limitada (LLC). Apenas algumas semanas depois, Zuckerberg atacou os defensores da justiça nos mídia sociais indianos que levantaram preocupações sobre os esforços da sua companhia para minar as protecções da neutralidade da rede no seu país.

Como muitos outros, Massing está a apelar a uma maior transparência, não só para as fundações, mas para os grupos de reflexão, Hollywood, Sillicon Valley e universidades. Apontando para o website Por dentro da Filantropia, cujo objetivo declarado é o de “levantar o véu sobre uma das forças mais poderosas e dinâmicas que moldaa a sociedade”, Massing argumenta que é necessário dedicar mais recursos e aumentar o escrutínio necessário. “Resta a questão de como pagar isso tudo”, escreve Massing, colocando a questão: “Existirá talvez um consórcio de doadores por aí, disposto a financiar uma operação que levantaria o pano sobre o seu próprio mundo?”

Mas alguns argumentam que já temos toda a informação que precisamos para estarmos preocupados. Em Dezembro Vandana Shiva, uma ecofeminista e activista, escreveu em resposta ao movimento de Zuckerberg na Índia que um “assalto corporativo colectivo está em andamento globalmente. Tendo alinhados todos os seus suspeitos dos costume, veteranos da América corporativa, tais como Bill Gates, estão a ser reforçados pela próxima vaga de Imperialistas filantrópicos corporativos, incluindo Mark Zuckerberg”.

“É uma armadilha para os cidadãos comuns”, ela continua, “porque eles garantem acesso fácil ao plebeu, quer se trate de sementes, água, informação ou internet”.

Fonte: http://www.alternet.org/economy/how-billionaires-use-non-profits-bypass-governments-push-their-agendas#.VvM52robnAF.facebook

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