O que aconteceria se todos acreditassem verdadeiramente que tudo está em Unidade?

O que aconteceria se todos acreditassem verdadeiramente que tudo é Unidade

Novas pesquisas sugerem que a crença na Unidade tem amplas implicações para o funcionamento psicológico e compaixão para com aqueles que estão fora do nosso círculo mais próximo.

“Experienciamo-nos a nós mesmos, aos nossos pensamentos e sentimentos como algo separado do resto. Uma espécie de ilusão óptica de Consciência” — Albert Einstein

“A nossa busca pela felicidade e por evitar o sofrimento é fundamentalmente a mesma e, portanto, somos iguais. Apesar das características que nos diferenciam – a raça, a língua, a religião, o género, a riqueza e muitas outras – somos todos iguais no que diz respeito à nossa Humanidade básica” – Dalai Lama (no twitter)

A crença de que tudo no Universo faz parte do mesmo todo fundamental existe em muitas culturas e tradições filosóficas, religiosas, espirituais e científicas, conforme captado pela frase “tudo o que é”. O vencedor do Nobel, Erwin Schrodinger, observou certa vez que a física quântica é compatível com a noção de que existe, de facto, uma Unidade básica no Universo. Portanto, apesar de parecer que o mundo está cheio de muitas divisões, muitas pessoas ao longo do curso da história humana e até aos dias de hoje acreditam verdadeiramente que as coisas individuais são parte de alguma entidade fundamental.

Apesar da prevalência desta crença, tem havido uma falta de uma medida bem validada em psicologia que captasse essa crença. Embora existam certas medidas de espiritualidade, a crença em questões de Unidade é tipicamente combinada com outras questões que avaliam outros aspectos da espiritualidade, tais como o significado, o propósito, a sacralidade ou ter um relacionamento com Deus. O que acontece quando secularizamos a crença na Unidade?

Numa recente série de estudos, Kate Diebels e Mark Leary decidiram investigar isso. No seu primeiro estudo, eles descobriram que apenas 20,3% dos participantes tinham pensado sobre a Unidade de todas as coisas “frequentemente” ou “muitas vezes”, enquanto 25,9% das pessoas “raramente” pensavam sobre a unidade de todas as coisas, e 12,5% as pessoas “nunca” pensaram nisso.

Os investigadores também criaram uma “Crença da Escala da Unidade” de 6 itens, composta pelos seguintes itens:

  1. Além das aparências superficiais, tudo é fundamentalmente uma Unidade.
  2. Embora existam muitas coisas aparentemente separadas, todas fazem parte do mesmo todo.
  3. Ao nível mais básico da realidade, tudo é uma Unidade.
  4. A separação entre coisas individuais é uma ilusão; na realidade tudo é uma Unidade.
  5. Tudo é composto da mesma substância básica, quer se pense nela como Espírito, Consciência, processos quânticos ou qualquer outra coisa.
  6. A mesma essência básica permeia tudo o que existe.

Aqueles que pontuaram mais alto nessa escala eram muito mais propensos a ter uma identidade que se estendesse além do indivíduo para abranger aspectos mais amplos da Humanidade, da vida, da natureza e até mesmo do cosmos. De facto, a crença na Unidade estava mais fortemente relacionada com o sentir-se conectado com pessoas distantes e aspectos do mundo natural do que com pessoas das quais se está próximo! Para além disso, embora a crença na Unidade estivesse relacionada com as experiências reais de Unidade (“experiências místicas”), não havia relação entre a crença na Unidade e o sentimento de proximidade de Deus durante uma experiência espiritual.

No seu segundo estudo, os investigadores analisaram valores e autovisões que podem estar relacionadas com a crença na Unidade. Eles descobriram que a crença na Unidade estava relacionada com valores que indicam uma preocupação Universal pelo bem-estar de outras pessoas, bem como uma maior compaixão pelos outros. A crença na Unidade também estava associada ao sentir-se ligado aos outros por meio do reconhecimento da nossa Humanidade comum e dos problemas e imperfeições comuns. Ao mesmo tempo, não havia relação entre a crença na Unidade e a medida em que as pessoas adoptam valores autocentrados, como o hedonismo, o autocontrole, a segurança ou a realização. Isso significa que as pessoas podem ter uma crença na Unidade e ainda ter muito cuidado consigo mesmas, limites saudáveis e sentido de orientação na vida.

As pessoas que acreditam que tudo é fundamentalmente UM diferem de formas cruciais daquelas que não acreditam. Em geral, aqueles que possuem uma crença na Unidade têm uma identidade mais inclusiva que reflete o seu sentido de ligação aos outros, animais não humanos e aspectos da natureza que são todos pensados como sendo parte do mesmo. Isto tem algumas implicações bastante amplas.

Em primeiro lugar, esta descoberta é relevante para a nossa actual paisagem política fragmentada. É muito interessante que aqueles que relataram uma crença maior na Unidade também fossem mais propensos a considerarem outras pessoas como membros do seu próprio grupo e a identificarem-se com toda a Humanidade. Há uma abundância de políticas de identidade nos dias de hoje, com pessoas a acreditarem que a sua própria ideologia é a melhor, e uma crença de que aqueles que não concordam com a sua própria ideologia são maus ou, de algum modo, menos humanos.

Pode ser benéfico para as pessoas de todo o espectro político reconhecerem e terem em mente uma crença na Unidade, mesmo quando estão afirmando os seus valores e crenças políticas. Somente ter “compaixão” por aqueles que fazem parte do seu grupo, e difamar ou até mesmo se tornar-se violento em relação àqueles que percepciona como fazendo parte de um grupo externo, não é apenas antitético relativamente à paz mundial de forma mais ampla, mas também é contraproducente para com a política de progresso que produz um bem maior para todos os seres humanos neste planeta.

Eu também acho que estas descobertas têm implicações importantes para a educação. Mesmo que alguns adultos não consigam mudar as suas crenças, para a maioria das crianças não é assim. Outras crenças – como a crença de que a inteligência pode aprender e crescer (a “mentalidade de crescimento“) – são extraordinariamente populares na educação actual. No entanto, eu pergunto-me quais seriam as implicações se todos os alunos fossem explicitamente treinados para acreditarem que somos todos parte da mesma Humanidade fundamental, mostrando activamente aos alunos, através de discussões em grupo e actividades, como todos temos inseguranças e imperfeições, e que apesar das diferenças de opiniões e crenças políticas, todos nós temos as mesmas necessidades fundamentais de conexão, propósito e importância neste vasto Universo.

Talvez agora, e mais do que nunca no curso da história humana, nós iríamos beneficiar mais de uma mentalidade de Unidade.

As opiniões expressas são as do (s) autor (es) e não necessariamente as da Scientific American.

SOBRE O AUTOR:

scott barry kaufman O que aconteceria se todos acreditassem verdadeiramente que tudo é UnidadeScott Barry Kaufman é psicólogo do Barnard College, da Universidade de Columbia, e está interessado em usar a ciência psicológica para ajudar todos os tipos de mentes a viverem uma vida criativa, satisfatória e significativa. Kaufman tem mais de 60 publicações científicas sobre inteligência, criatividade, personalidade e bem-estar. Para além de escrever a coluna Beautiful Minds para a Scientific American, ele também hospeda o The Psychology Podcast, que foi nomeado pelo Business Insider como um podcast que “mudará a forma como pensa sobre o comportamento humano”. Kaufman é o autor e / ou editor de 8 livros, incluindo o “Duplamente Excepcional: apoiando e educando alunos brilhantes e criativos com dificuldades de aprendizagem”, “Destinado a Criar: desvendando os mistérios da mente criativa” (com Carolyn Gregoire), “Sem Dons: Inteligência Redefinida” e a “Complexidade da Grandeza: além do talento ou da prática”. Kaufman recebeu um Ph.D em psicologia cognitiva pela Universidade de Yale, e o grau de Mestre em psicologia experimental pela Universidade de Cambridge, com uma bolsa da Gates Cambridge. Pode descobrir mais em http://ScottBarryKaufman.com.

Fonte: https://blogs.scientificamerican.com/beautiful-minds/what-would-happen-if-everyone-truly-believed-everything-is-one/?fbclid=IwAR1WZIfz-NspYN1JHVYhpTMsyZdGaltYGdve4TS_H0PGJhd9hlBIMwYBtNs

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