Agricultura Regenerativa Vs Agricultura Extractiva

A AGRICULTURA REGENERATIVA é um termo que se contrapõe aos sistemas agrícolas convencionais, que se podem designar genericamente por sistemas de Agricultura Extractiva.

A Agricultura Extractiva, pressupõe uma perspectiva simplificada das plantas como mecanismos de extracção de nutrientes do solo. Assim, é fornecida pelo agricultor, através da adição de adubos químicos, a quantidade estimada de nutrientes considerados pela indústria como fundamentais para o desenvolvimento das plantas (macronutrientes e alguns micronutrientes), nas quantidades que se estima serem retiradas pela cultura.

No entanto, são apenas fornecidos os nutrientes consumidos em maior quantidade, enquanto que aqueles que as plantas necessitam em quantidades diminutas (micronutrientes e elementos vestigiais), nunca são repostos, esgotando-se ao fim de algumas décadas de cultivo.

O solo é visto como um mero apoio para suster as raízes das plantas, sem vida própria.

Dessa forma gera-se um desequilíbrio de minerais e outros nutrientes essenciais para a vida dos organismos do solo. Este solo, enfraquecido, desmineralizado e desvitalizado produz plantas doentes por falta de minerais essenciais. Estas plantas, porque estão debilitadas, atraem insectos e fungos que, por sua vez, são combatidos pelo homem pela adição de venenos agrícolas.

Os animais que se alimentam destas plantas desmineralizadas e com resíduos de pesticidas também adoecem com facilidade, precisando de constantes tratamentos. A agricultura extractiva de base tecnológica e química, saída da revolução verde, dá assim origem a alimentos desnutridos, sem os elementos minerais necessários a uma vida saudável, provocando doenças em toda a cadeia alimentar, culminando nos seres humanos.

A AGRICULTURA REGENERATIVA, pelo contrário, entende a agricultura como resultante das sinergias existentes na natureza. Procura trabalhar segundo os processos complexos naturais, de forma a produzir alimentos ou outros produtos vegetais e animais, operando em simultâneo a regeneração dos solos, da água, dos ecossistemas, da atmosfera (fixação de carbono) e do papel na sociedade e rendimento do agricultor. Em Agricultura Regenerativa pensa-se em termos de sistemas complexos, os chamados Todosou Holos, porque nada na natureza acontece isolado, mas tudo funciona por redes complexas impossíveis de conhecer na totalidade (os Holos ou Todos).

A forma de pensamento em Agricultura Regenerativa baseia-se num método de tomada de decisão denominado Holistic Management, desenvolvido por Allan Savory, para que o ser humano, que tem uma forma de pensamento linear perfeitamente adaptado à tecnologia mas inadaptado ao meio natural (que funciona por Holos) possa tomar as suas decisões de gestão de forma mais holística, ambientalmente, economicamente e socialmente equilibradas. Isto permite, entre outras coisas, a rápida recuperação de solos empobrecidos, ou até reverter desertos.

Há várias técnicas e tecnologias utilizadas nesta forma de agricultura.

O solo e os seus microrganismos são privilegiados, uma vez que são a base de toda a vida e de todo o funcionamento na natureza. Assim, podem ser elaborados e aplicados biofertilizantes, com materiais naturais, facilmente disponíveis ao agricultor. Estes biofertilizantes enriquecem a cultura com microrganismos, e não com nutrientes, porque são estes microrganismos que vão ciclar e disponibilizar os alimentos existentes no solo para as plantas. Os biofertilizantes são produzidos na exploração agrícola, numa perspectiva de auto-sustentabilidade.

A necessidade de mobilização do solo não é desprezada. Os microrganismos do solo necessitam de alimento (energia), água e ar para se desenvolverem. Num solo pobre, gasto e compactado, é essencial incrementar a sua microbiologia (que está quase aniquilada) e, para isso, é necessário disponibilizar à vida microbiana, alimentos, água e ar. Os alimentos podem ser fornecidos pela existência de plantas verdes, que os alimentam através das substâncias libertadas pelas suas raízes. A água e o ar precisam de existir também.

Na Austrália, foi desenvolvido por P.A. Yeomans um método de planeamento da exploração agrícola cujo mote principal é a gestão da água no solo. Este sistema, chamado sistema keyline, utiliza os declives existentes na topografia dos terrenos para definir as linhas de passagem do tractor (mobilização) e os pontos de armazenamento de água adequados (charcas), actuando apenas por gravidade. A sua aplicação traduz-se no aumento da infiltração de água e arejamento do solo, e diminuição da erosão.

A mobilização segundo as linhas definidas no planeamento em keyline, efectuada por um equipamento designado por arado Yeomans (nome do seu inventor), não revira o solo mas actua sub-superficialmente, descompactando-o. Isto permite a entrada de água e de ar em profundidade, em locais anteriormente completamente fechados. As plantas emitem raízes até esses locais, alimentando nova microbiologia em profundidade, e existe ar e água disponíveis, também essenciais. Em cada passagem, o arado passa 5 cm mais profundamente no solo. Isto permite um aprofundamento efectivo do solo em 10 cm por ano. A profundidade das raízes das plantas é fundamental para o seu crescimento e saúde.

Em solos agrícolas esgotados e com erosão, é necessário também repor o seu teor em micronutrientes e em elementos traço (vestigiais), que foram totalmente extraídos pelo método agrícola anterior. Assim, pode aplicar-se pó de rocha, o material original de todos os solos da terra, que continha originalmente todos os nutrientes necessários para sustentar os ecossistemas locais, nutrientes que foram perdidos durante o processo de degradação dos solos e ecossistemas.

Outra técnica usada para descompactação do solo é a ferramenta chamada Impacto Animal. Através da gestão do comportamento de animais herbívoros de cascos com elevado peso corporal, como as vacas, concentrando-os num determinado ponto e movendo-os rapidamente, consegue-se a quebra da crosta superficial do solo e a cobertura uniforme do terreno com estrume e urina destes animais. Assim, através da recuperação de um comportamento natural dos herbívoros (concentração em manada em constante movimento), nova erva pode crescer e novos pastos/prados se regeneram, recuperando a vida do solo (que se alimenta das plantas), aumentando a infiltração da água das chuvas, fixando carbono que é retirado da atmosfera pelas ervas dos pastos e aumentando o rendimento do agricultor obtido no mesmo local, agora mais produtivo.

Dias Nas Árvores – Projecto em Agricultura Regenerativa: Keyline

O nosso projecto iniciou-se num terreno de 11 ha no Alentejo, resultante da desflorestação realizada na campanha do trigo, nos anos 30 do século XX. Neste terreno, onde existiu em tempos uma floresta mediterrânica, de sobreiros e azinheiras, mas também de medronheiros, pereiras bravas, pilriteiros, etc., após a desflorestação, produziu-se trigo e outros cereais, e depois tomate e milho de forma intensiva. Quando chegámos, em 2011, o solo estava tão debilitado que nem as ervas cresciam. Numa das zonas do terreno tinha sido feita uma mobilização e a erosão era enorme.

Começámos por planear em keyline, e mobilizar uma vez apenas, de acordo com as suas linhas. Os efeitos de melhoria da saúde do solo foram imediatos. Aplicámos rocha moída em todo o solo; em 2014 plantámos as árvores de fruto: citrinos, macieiras, pereiras, ameixeiras amendoeiras, nogueiras, mirtilos, framboesas e amoras. As árvores são regadas com biofertilizantes e pulverizadas com algas. O solo vivo, que quando chegámos tinha menos de 3 cm de profundidade, tem hoje mais de 20 cm. A biodiversidade é imensa.

O solo nunca mais ficou nú. Todos os anos é feita uma mobilização com o arado yeomans, que permite aumentar a profundidade do solo a cada passagem.

Tudo no pomar é pensado de forma holística. Todos os trabalhos realizados são pensados para um benefício global do pomar. São plantadas árvores e arbustos para a fertilidade do solo, o ecossistema, abrigo de aves, insectos e outros animais acima do solo, mas também de fungos bactérias, nemátodos, etc, organismos que, abaixo do solo, precisam de ter fontes de alimento fiáveis, como árvores, arbustos e plantas herbáceas. Os investimentos de tempo e dinheiro são analisados relativamente ao seu custo/benefício.

Na entrelinha, fazemos pastoreio de galinhas poedeiras com galinheiro móvel e, numa bordadura ainda florestada, estão as abelhas de uma pessoa amiga.

Ambas as actividades beneficiam do pomar, e beneficiam o pomar. As galinhas adicionam fertilidade e as abelhas aumentam a produção. Também os animais selvagens são encorajados, existindo bebedouros dispersos durante o verão.

Este é um projecto de produção agrícola de fruta. Simultaneamente produz plantas aromáticas, ovos e mel.

Produz também solo, ecossistema, habitat e um local encantador onde cada dia de trabalho é uma exultação da natureza!

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